Intermediários

Processos, ferramentas e ambientes para objetivos subjetivos

O que é invisível a nós? Que coisas escapam aos cinco sentidos, que estão presentes mas não podem ser definidas? Ou seria a pergunta, o que é o invisível?

Um objeto é comum. Porém quando é portador de um poder, o que passa a ser? Um talismã, uma arma, um instrumento? O poder transforma o objeto em um veículo, uma ferramenta que permite ao seu operador realizar o objetivo proposto. Igualmente, uma área quando designada e delimitada passa a ser o espaço que possibilita o acontecimento do objetivo proposto. E interessam também os espaços de fronteiras pouco definidas, como são os espaços emocionais e espirituais, da mesma forma os dos sonhos e os das fantasias. Espaços estes que são abstratos e impalpáveis, que se permeiam e se confundem entre si, onde entramos e de onde saímos constantemente sem nos dar conta.

Os objetos-espaços atuam entre o físico, o psicológico, o emocional e o invisível. São intermediários e como tal passam a depositários de possibilidades, poderes e anseios. Pontuam o silêncio. São ações poéticas que existem no vazio entre as continuidades.

Rodrigo Cardoso, 2006

domingo, 26 de setembro de 2010

Limpeza das praias: Clean Up no mar

Sexta-feira dia 24 foi dia de muito vento. Mesmo na enseada de Botafogo, saindo da Praia da Urca, dava pra sentir sua força empurrando Jurupi silenciosamente na direção da Ponta de São João, onde Flávia e Helio já deviam ter chegado. Uma delícia remar quase sem esforço vendo a proa cortar a água, mesmo que algumas vezes sentisse certa instabilidade provocada pelas ondulações de popa.

Remei da Urca até a Praia de fora, depois encontrei Bruno, Marquinhos, Lariana e Pedro boiando diante do Forte São José em dois caiaques duplos. Contornamos o Forte da Laje e retornamos para a Praia da Urca sacolejando no mar encrespado que balançava os caiaques sem parar. A proa subia e depois caía num estrondo levantando borrifos de água quase cristalina. Água cristalina na entrada da baía? Sim, a água estava limpa.

Tamanha limpeza e o forte vento SW que antecedeu a entrada da frente fria me fizeram pensar que no dia seguinte nossa faxina seria frustrada. Esqueci que uma frente fria vem acompanhada de chuva, e que chuva é sinônimo de praias sujas.

Três quartos do nosso planeta são cobertos por oceanos, e a parte continental que sobra é cortada por numerosos rios que drenam enorme quantidade de nutrientes para o mar. Uma coisa linda esse tal ciclo da água: o mar alimenta as nuvens, a chuva alimenta os rios, os rios alimentam o mar. Mas os rios do planeta não carreiam só nutrientes. Suas águas também conduzem uma quantidade absurda de lixo. Resíduos do nosso consumo desenfreado atestam nosso enorme progresso, nossa riqueza, nossos tão desejados desenvolvimento e crescimento econômico.

Mas que espécie de pujança é essa que inunda nosso litoral de tanta porcaria? Todo produto que consumimos vem embalado e reembalado. E pra onde vão todas essas embalagens? Pro mar. Vão dar na praia.

O que fazer? A Comlurb afirma que a coleta de lixo cobre quase 100% da cidade, inclusive com coleta seletiva. Se a Comlurb recolhe o lixo, então de onde vem tanta sujeira? Acertou que disse da minha, da sua, da nossa casa! É...não dá pra tapar o sol com a peneira minha gente. Essa porcariada toda é minha, é sua, é nossa! Então já que a imundice é nossa que tal se a gente fosse limpar um pouquinho nossa praia?

Foi o que fizemos no sábado. Nos encontramos na Praia da Urca pra uma remada até a Praia do Morcego em Niteroi, logo depois da Ponta da Jurujuba. Nosso amigo Caranguejo preparou um super capuccino pra animar a galera, e como todo pretexto é bom pra remar, sobretudo se for acompanhado de bolo, biscoitos, pão, mortadela, bananas e maçãs, reunimos 14 canoistas amigos e amigos dos amigos.

Não encontramos o vento que soprava na vespera. O mar estava liso e o céu um pouco encoberto por algumas nuvens que foram esgarçando, deixando passar um pouco de sol. A maré vazante jogava pra fora sem força suficiente para desviar o rumo e um pequeno abatimento pra bombordo bastava pra endireitar o curso.

  
Com uma hora de remada desembarcamos na prainha e imediatamente começamos a catar o lixo miudo que se escondia entre a vegetação rasteira. Tonho foi preparar o capuccino e em poucos minutos estava chamando. - O café está na mesa senhoras e senhores, venham comer! Os mais famintos logo cercaram a toalha colocada sobre uma ponte de cimento, enquanto outros acabavam de encher os primeiros sacos com tampinhas de garrafa e fragmentos de isopor. Depois todos se reuniram em animada conversa sobre a paradoxal realidade das nossas beiradas, misto de beleza e sujeira.

Enquanto rolava o papo, passaram duas OC6 do clube Mauna Loa de Charitas, nossos amigos do lado de cá do brejão, da grande poça que separa o Rio de Niteroi. Gritamos convidando-os para desembarcarem na volta do treino. Quando retornaram já tinhamos enchido algo em torno de 30 sacos de lixo. Tiramos fotos, trocamos algumas palavras e depois fomos embora rebocando o caiaque caçamba levado só pra carregar o lixo recolhido. Duas OC2 também pintaram por lá de forma que num dado momento tinham 30 canoistas reunidos na praia.
No caminho de volta, antes da ponta da Jurujuba passamos por um amontoado de lixo flutuante. Já não tinha espaço no caiaque, mesmo assim ainda recolhemos uns 4 sacos de detritos fedidos antes de seguir pra Urca, onde chegamos por volta das 11 horas.

Com os barcos safos, reunimos os sacos em frente a dois conteineres da Comlurb e nos colocamos em fila Eu, Letícia, Malu, Bruno, Marquinhos, Tonho, Alê, Iuri, Gustavo, Ana, Flávia, Edu e Maurício para uma foto. Só faltou o Will que ficou em Charitas. Em seguida cada um foi arrumar suas tralhas para partir.

Pouco a pouco a praia ficou vazia de canoistas só restando as caçambas de lixo. Uma rodada de várias voltas de chopp gelado encerrou o evento de limpeza. Mesmo sabendo que nosso gesto jamais seria suficiente pra resolver o problema estávamos contentes e satisfeitos. Mais uma vez conseguimos estar em paz entre amigos e voltar pra casa em segurança, com o sentimento de dever cumprido.
Que venham outros Clean Up, estaremos sempre dispostos a dizer: presente! E que presente!

Um comentário:

  1. Belo dia no mar com vocês. O Rio agradece a limpeza e o grito de alerta! De um em um, de dia em dia, virá um tempo em que a gente mobilizará um grupo cada vez maior! Eu acredito! Grande beijo

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