Intermediários

Processos, ferramentas e ambientes para objetivos subjetivos

O que é invisível a nós? Que coisas escapam aos cinco sentidos, que estão presentes mas não podem ser definidas? Ou seria a pergunta, o que é o invisível?

Um objeto é comum. Porém quando é portador de um poder, o que passa a ser? Um talismã, uma arma, um instrumento? O poder transforma o objeto em um veículo, uma ferramenta que permite ao seu operador realizar o objetivo proposto. Igualmente, uma área quando designada e delimitada passa a ser o espaço que possibilita o acontecimento do objetivo proposto. E interessam também os espaços de fronteiras pouco definidas, como são os espaços emocionais e espirituais, da mesma forma os dos sonhos e os das fantasias. Espaços estes que são abstratos e impalpáveis, que se permeiam e se confundem entre si, onde entramos e de onde saímos constantemente sem nos dar conta.

Os objetos-espaços atuam entre o físico, o psicológico, o emocional e o invisível. São intermediários e como tal passam a depositários de possibilidades, poderes e anseios. Pontuam o silêncio. São ações poéticas que existem no vazio entre as continuidades.

Rodrigo Cardoso, 2006

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Mutirão na Urca

Sábado, 21 de agosto. A manhãzinha fria de céu encoberto por névoa fina chamava pra uma soneca prolongada. Haja coragem pra sair da cama; haja disposição pra levantar e ir cimentar os buracos no calçamento em frente às cabines da PU. Mas estando entre amigos tudo é festa e divertimento. Além do mais, compromisso é compromisso, e aquela área anda precisando mesmo de cuidados.
Flávia, Letícia, Gustavo e Ana ainda estavam no mar deslizando na Maia pelos cantos das beiradas. Com uma vassoura em punho via chegar aos poucos as gentes do lugar: Tonho, Bruno, Marquinhos, Alê, Vini, cada um trazendo sua parcela de valiosa ajuda. Até mesmo o Wagner, que a tempos eu não via, chegou trazendo dez metros de fio e brocas para furar as duras hastes de massaranduba do cavalete.


Parado, fitando o mar, vi quando a Maia voltou trazendo sorrisos escancarados. Abraços, beijos, mãos estendidas, o prazer de reencontrar os amigos.

Ainda envoltos em euforia iniciaram os trabalhos. As ferramentas foram passando de mão em mão, mãos amigas que se dão, dando uma mão umas às outras, terminando de furo em furo a adaptação das traves que seguram a canoa rosa da Alê. 

No meio do reco-reco, do toc-toc, mais um pedaço de chão também foi consertado perto do canteiro que fica na lateral do prédio que um dia foi o hotel balneário da Urca. Qual o som faz uma mão que aplaude sozinha?


Ainda falta muito o que fazer por alí, mas dá pra ver bem a diferença do que era um tempo atrás. Devagarinho vamos dando um jeito no local. Da próxima vez vou ver se começo, melhor dizendo, continuo, a restaurar a fachada das cabines pra depois dar uma demão de tinta.

Não remei. Os que remaram puderam aproveitar do tantinho de sol, que dava as caras de ora em vez, e do mar calminho, calminho. Lá fora passaram três canoistas do Guanabara. Na beira chegava uma canoa de 6 vinda do treino.
Com as traves do cavalete consertadas, saiu de novo a Maia pra passear mais um pouco, agora levando a Flávia, Edu, Ali, Lelê e sei lá mais quantos couberam no seu bojo generoso. Passeio rápido pelas bordas da Urca, pelas sujas águas da enseada de Botafogo, da bela e fedorenta Botafogo.



Fiquei em terra pois ainda tinha uma buraqueira danada pra tapar. Meus braços cansados pela falta de costume de virar massa, de manobrar a colher de pedreiro, já não respondiam de pronto ao meu comando. Ainda que mancos continuaram a se mexer movidos pela vontade de terminar logo o que haviam começado.

Mal conseguia disfarçar minha satisfação de ver o espaço ganhando ares de coisa tratada. Mal conseguia esconder o ticão de orgulho que sinto de fazer parte desse todo amigo que ao longo dos anos vem construindo uma "casa" e uma identidade fraterna pra canoagem carioca.


Só de termos feito os cavaletes; de termos carregado, furado e serrado tantas madeiras; de termos escavado o chão; de termos conseguido a autorização da prefeitura pra instalarmos nossa base; de termos dado um aspecto decente ao que foi um canto de praia abandonado; só isso é por si só grandioso e mostra a força que podemos ter quando trabalhamos juntos numa mesma direção.

Com tantas pessoas ajudando, não tardamos a finalizar as tarefas do dia, e, a partir de então, foram as cervejas que passaram de mão em mão. Abriu-se a roda e a conversa rolou frouxa até que cada um foi recolher suas tralhas para ir embora, já com saudades de amanhã.

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