Intermediários

Processos, ferramentas e ambientes para objetivos subjetivos

O que é invisível a nós? Que coisas escapam aos cinco sentidos, que estão presentes mas não podem ser definidas? Ou seria a pergunta, o que é o invisível?

Um objeto é comum. Porém quando é portador de um poder, o que passa a ser? Um talismã, uma arma, um instrumento? O poder transforma o objeto em um veículo, uma ferramenta que permite ao seu operador realizar o objetivo proposto. Igualmente, uma área quando designada e delimitada passa a ser o espaço que possibilita o acontecimento do objetivo proposto. E interessam também os espaços de fronteiras pouco definidas, como são os espaços emocionais e espirituais, da mesma forma os dos sonhos e os das fantasias. Espaços estes que são abstratos e impalpáveis, que se permeiam e se confundem entre si, onde entramos e de onde saímos constantemente sem nos dar conta.

Os objetos-espaços atuam entre o físico, o psicológico, o emocional e o invisível. São intermediários e como tal passam a depositários de possibilidades, poderes e anseios. Pontuam o silêncio. São ações poéticas que existem no vazio entre as continuidades.

Rodrigo Cardoso, 2006

sábado, 29 de maio de 2010


Começou a semana mundial do meio ambiente com um evento de limpeza na Praia de Botafogo promovido pelo Instituto Aqualung e pelo Clean Up The World.

O CCC foi convidado pelos amigos do CRG, Márcia Olivia e Marco Tavares, para reforçar as fileiras canoísticas, na esperança de dar maior visibilidade ao projeto Baía Limpa e, quem sabe um dia, resgatar suas águas, tornando próprias ao banho as praias de Botafogo, Urca, Flamengo, Eva, Adão e tantas outras das beiradas do Rio e de Niteroi. Taí um excelente pretexto para remar nesse dia friorento.


Meu ânimo não era dos melhores. O dia amanheceu estranho. Quer dizer, não sei. Levantei as 6 e vi o céu meio fosco, coberto por um véu leitoso. Entrevi algo de azul lá no fundo, mas era um azul tão pálido que não dava pra saber.

Fiz dois sanduiches e enchi a garrafa d’água; reuni saia, tampas, boinas; vesti uma camiseta de manga longa por baixo da camisa do clube e coloquei uma muda de roupa seca na mochila.
Estava fria a manhã. Não foi assim durante a semana passada. O outono traça seu caminho em direção ao inverno, tenho que me acostumar.

E fazia mais frio na rua, ainda mais com o vento zunindo nas orelhas e o ar gelado batendo no corpo durante a pedalada até o aterro.


Parei na Praia de Botafogo pra ver o movimento. O Pão de Açúcar parecia um vulcão soltando fumaça pelas ventas. As águas da enseada estavam imóveis. Na areia, um casal de quero-queros passeava despreocupado, mas quando tentava me aproximar, os bichos saiam andando alternando as patas. Foi uma visão animadora, suficiente para aplacar o torpor da alma ainda adormecida.

Chegando na PV, passei os olhos procurando algum canoísta e... Opa! Ainda tinham duas canoas na areia! Mas não deu nem tempo de ver quem ia embarcado. Quando desci a calçada a segunda canoa já estava sendo empurrada na direção das ondas. 


Tudo bem, vamos à ação. Abre cadeado do caiaque, abre o do remo. Tira as tralhas da mochila, bota o caiaque na areia, arruma tudo e... Braços pra que te quero! O mar parece ter aplainado um pouco e quase não há vento.


Saída tranqüila. Na virada do Pão de Açúcar avisto um navio envolto em brumas como um fantasma. O nevoeiro cobre a paisagem escondendo o relêvo de Niterói. Agora sinto o vento vindo de NE. A corrente puxa pra fora da barra sem muita convicção. As ondas sobem pelo costão em rendas esgarçadas que se desfazem em nada. Um cheiro de óleo empesteia o ambiente e, então, percebo manchas viscosas desenhando pequenos arco-íris na superfície da água.


Uma lancha pára de repente e um marujo pula no mar poluído. Entendo que há um problema e remo na direção da embarcação à deriva para ver se precisam de ajuda. Um cabo enrolou no hélice de tal forma que está difícil desprender. Um bom exemplo de como o lixo no mar pode prejudicar quem vive na linha d'água. Sem poder fazer nada, sigo meu caminho observando bandos de gaivotas passarem rumo ao alto mar.

O sol já tenta dissipar o cinza claro do céu que contrasta com o cinza escuro do mar. Ainda não tem força bastante para romper de vez o nevoeiro, mas já é o suficiente para aquecer o corpo.

Passo pelo Cara de Cão sem ondas e logo depois me deparo com um tapete de detritos perto da Coruja. Arrá! Já sei onde vou catar meu lixo. O cheiro de óleo persiste. Na Praia de Dentro, outro aglomerado de lixo. Vai faltar espaço no caiaque.


Na PU olho a carcaça do Bom Tempo devorada pelas vagas do tempo. Ali na beira, dois caiaques. Que surpresa! Que boa surpresa! Haroldo e Daniel se preparam para sair. Vamos juntos até o CRG.

Os barcos não flutuam; se atolam nas águas podres, mal cheirosas, corrosivas, densas de tanta porcaria dissolvida. Não há movimento, tudo parece morto, exceto pelas nossas vozes que nos arremessam uns de encontro aos outros em animado entendimento, mitigando a morbidez do ambiente.


No Guanabara um grupo está quase pronto pra se lançar ao mar. Desembarco pra uma conversa rápida  enquanto Haroldo e Daniel seguem em frente para aproveitar o dia de remada. Algum tempo depois parto pra coletar um pouco de lixo.

Remando direto para a Pedra da Coruja, espero encontrar aquele carpete de sujeira flutuante visto uma hora atrás, e no caminho encontro o Daniel voltando do Laje. Ele faz meia volta e continuamos juntos até a Praia de Dentro para catar o lixo estagnado perto de uma rampa. Entre os detritos uma espessa camada de óleo tem aspecto coagulado.



Não dá pra botar a mão na água. Os remos já estão ensebados. Então, catamos lixo na praia mesmo, enchendo três sacos em poucos minutos. No caminho de volta pra Urca encontramos o pessoal do CRG e o Tonho Caranguejo.

Depois de deixar o Daniel na praia e trocar uma ideia com a Alê e o Iuri que estavam por alí, Eu e Tonho fomos  para a Praia de Botafogo, onde voluntários recolheriam os sacos de lixo.


Prosseguimos para a porta da baía. Não sei quando atinei pro sol incendiando tudo a minha volta. Remo ouvindo o Caranguejo falar dos efeitos positivos que a canoagem produziu nele, sobre o reencantamento do mundo, sobre as façanhas que pretende realizar. Desmembrando a realidade à luz das boas palavras do Caranga, vejo andorinhas pousadas sobre claves de sol; vejo garças, biguás e tartarugas.




Pouco antes de dobrar o Cara de Cão, Tonho volta para a Urca. Eu prossigo pra PV com as ondas impelindo serenamente o caiaque pela água verde só um pouco saliente. Mas ao me aproximar do costão do Pão de Açúcar noto o mar atormentado, chapiscado de marolas pontudas e esbranquiçadas. As vagas vêm quebrando pela aleta direita invadindo o convés. Ora o caiaque desliza, ora finca a proa querendo rodar como um compasso. Seguro o remo com força dando bofetões na água pra manter o equilíbrio.

A adrenalina sobe diante do espetáculo do mar levantando cortinas de água e espuma. Mas dura pouco o desassossego e logo me encontro entregue à relativa mansidão da enseada, longe daquele trecho virado do avesso.


Quero chegar logo à praia. Firmo o caminho e coloco o remo na água, impressionado com a sujeira do mar, mas  satisfeito de ter participado do mutirão e feliz com os encontros do dia. Mais um dia.

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