Intermediários

Processos, ferramentas e ambientes para objetivos subjetivos

O que é invisível a nós? Que coisas escapam aos cinco sentidos, que estão presentes mas não podem ser definidas? Ou seria a pergunta, o que é o invisível?

Um objeto é comum. Porém quando é portador de um poder, o que passa a ser? Um talismã, uma arma, um instrumento? O poder transforma o objeto em um veículo, uma ferramenta que permite ao seu operador realizar o objetivo proposto. Igualmente, uma área quando designada e delimitada passa a ser o espaço que possibilita o acontecimento do objetivo proposto. E interessam também os espaços de fronteiras pouco definidas, como são os espaços emocionais e espirituais, da mesma forma os dos sonhos e os das fantasias. Espaços estes que são abstratos e impalpáveis, que se permeiam e se confundem entre si, onde entramos e de onde saímos constantemente sem nos dar conta.

Os objetos-espaços atuam entre o físico, o psicológico, o emocional e o invisível. São intermediários e como tal passam a depositários de possibilidades, poderes e anseios. Pontuam o silêncio. São ações poéticas que existem no vazio entre as continuidades.

Rodrigo Cardoso, 2006

sábado, 22 de maio de 2010


Mais um dia em que o sol, tímido, brinca de pintor, decorando o céu em aquarela. Todo dia o mesmo lugar, a cada dia uma paisagem diferente graças ao jogo que fazem o vento, o mar, as nuvens.


7 da matina. Quatro oc6 já estão prontas tomando fôlego nas areias da PV. Charles também prepara uma oc2 para seguir até o Leblon. Era pra ser Cagarras, mas, não sei por que, ficou sendo Leblon.

Eu, o patinho feio, me apresso em arrumar meu caiaque para acompanhá-los; coloco as tampas dos compartimentos, visto a saia e o colete, amarro um cabo na proa. Pronto. Me jogo ao mar sem dificuldade, apesar das ondas que se fazem de inocentes, atrás de duas canoas que já estão a espera.


Remo um pouco pra fora procurando um bom ângulo para fotos. Não quero ficar para trás, mas também não posso perder a oportunidade de registrar o céu estupendo. As duas canoas femininas já estão lá na frente, e as outras vão passando. Passa uma, passa duas e, no final, não tem jeito, fico pra trás mesmo.


As ondas estão grandes, tentando esconder as ilhas que brincam de esconde-esconde. O caiaque balança, sobe, desçe, mergulha, vem a tona, numa coreografia que já conheço. Não tem como não se sentir um artista nessas beiradas. Somos, com nossos remos nas mãos, pintores, bailarinos, poetas...

A minha volta, traineiras coloridas; no ar, uma infinidade de gaivotas como que a desejar as boas vindas. Fazemos todos parte desse universo mágico onde não faltam nem as princesas. Essas seguem em ritmo acelerado e logo estão fora do alcance da minha vista.


Paro várias vezes para tentar capturar a beleza da paisagem. Lá longe os Dois Irmãos iluminados por um raio de sol, como dois atores a contracenar no foco de um refletor. De repente sinto gotas de chuva. Sim, está chovendo uma chuva delicada que em nada ameaça. Paro mais uma vez, agora para telefonar pro Edu Feijoca. Ele não vem. É uma pena. Serei o único patinho feio mesmo.


No Posto 6 as ondas formam tubos que mordem com vontade a laje. A água está verdinha, bonita como ela só. O sol ainda é uma esperança, mas vai sair, só tenho que esperar mais um pouquinho.

Logo na esquina do Diabo as ondas açoitam a pedra do Arpoador sem piedade. Rodopio como quem valsa, dou piruetas ao estilo Bolchoi e, finalmente, avisto duas oc6 paradas em contemplação. As outras continuaram até o Leblon como previsto. Meto o remo com força na água pra tentar chegar a tempo de um mergulho.


Durante todo o percurso, apesar das ondas próximas aos costões, sinto o mar macio, não resiste ao caiaque que avança gostoso. Chego a questionar como será a volta, mas agora quero só curtir esse precioso momento.

Antes de chegar ao final da praia vejo a canoa das meninas. Ouço as vozes contentes que me enchem de igual contentamento. Não vou enganar: alí estão pessoas que gosto muito e admiro um outro tanto. Não sei o nome de todas, só sei que Letícia, Andréia, Aline e Teté estão ali fofocando. E como é bom encontrá-las. Vou roubar uma frase da Lelê: "Muito bom estar entre amigos no meio dessa imensidão que é o mar. Não nos deixa sentir tão pequeninos..."


Naquela altura as nuvens já se esgarçavam deixando ver pedaços de um azul brilhante como aqueles de sabão em pó.

E lá vem a outra canoa feminina seguida da oc2 do Charles. Hora de partir. Pouco a pouco vou de novo me transformando no patinho feio e ficando para trás. Mas agora, tendo as canoas a vista, tento impor um ritmo mais vigoroso. Sigo o mais perto que posso das pedras tentando cortar caminho. Durante algum tempo consigo manter-me perto das canoas, assim mesmo vou perdendo terreno.


Paro perto da lage do Posto 6 para fazer algumas fotos. Consigo registrar algumas ondas e percebo que as canoas também pararam. Então recomeço forçando a mão pra ver se consigo pelo menos chegar junto com todo mundo na PV.

Agora o sol está presente iluminando o caminho. A oc6 está a minha esquerda, a oc2 segue mais atrás. Antes do Leme já estou entre as duas. Forço um pouco mais pra ver até onde aguento. Passo bem perto das pedras, quase em transe, seguro em meu barquinho sem me importar com os tapas das ondas que vêm de todos os lados e, finalmente, entro na enseada.

Vou chegando perto da praia devagar, aguardando o momento de me lançar na direção da areia. Minhas amigas Zo e Zu estão lá com suas companheiras refrescando as patinhas no molhado.


Avanço com suavidade até poder ficar de pé. Levo o caiaque até a areia sêca e depois vou ajudar no desembarque das canoas que vêm logo atrás.

Estamos todos em casa agora.

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