Intermediários

Processos, ferramentas e ambientes para objetivos subjetivos

O que é invisível a nós? Que coisas escapam aos cinco sentidos, que estão presentes mas não podem ser definidas? Ou seria a pergunta, o que é o invisível?

Um objeto é comum. Porém quando é portador de um poder, o que passa a ser? Um talismã, uma arma, um instrumento? O poder transforma o objeto em um veículo, uma ferramenta que permite ao seu operador realizar o objetivo proposto. Igualmente, uma área quando designada e delimitada passa a ser o espaço que possibilita o acontecimento do objetivo proposto. E interessam também os espaços de fronteiras pouco definidas, como são os espaços emocionais e espirituais, da mesma forma os dos sonhos e os das fantasias. Espaços estes que são abstratos e impalpáveis, que se permeiam e se confundem entre si, onde entramos e de onde saímos constantemente sem nos dar conta.

Os objetos-espaços atuam entre o físico, o psicológico, o emocional e o invisível. São intermediários e como tal passam a depositários de possibilidades, poderes e anseios. Pontuam o silêncio. São ações poéticas que existem no vazio entre as continuidades.

Rodrigo Cardoso, 2006

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Circunavegação da Ilha Grande 2011 - De Castelhanos a Dois Rios

 
Aos poucos os barcos foram se transformando em pequenos pontos coloridos dispersos na paisagem cinzenta. Nuvens cobriam as montanhas fazendo com que parecessem ainda mais distantes do que realmente estavam. Mal dava pra ver a Ilha da Marambaia. Era só um contorno no horizonte. A Ilha das Palmas se confundia com a Ponta dos Castelhanos. Quando sua silhueta se definisse, seguiríamos  na direção do espaço entre ela e a Ponta Grossa.
Os barcos avançavam escalando as massas d'água que continuamente surgiam por bombordo. De vez em quando o caiaque despencava num estrondo. Via o convés de proa ser lavado minuto a minuto. Receava pela estanqueidade do compartimento de bagagem da proa. Se enchesse d'água ficaríamos em delicada situação.

O relevo da Ilha das Palmas começou a se destacar no horizonte. De cinza, sua matiz foi pra azul e daí pro verde. Sinal que estávamos perto. Uma pequena pausa em frente a Ponta Grossa pra esperar quem vinha atrás não deu tempo pra juntar todo mundo. O vento nos arrastava rapidamente. O grupo de quinze pessoas só voltou a se reunir quando encontramos um local protegido atrás da Ilha das Palmas.

Faltava pouco, mas o mar ainda não nos aceitava completamente. Ainda sacudimos bastante antes de colocarmos os pés sobre as areias da Praia dos Castelhanos.

 
Com a praia tomada de caiaques e uma canoa dupla, era hora de comer e descansar. O vento cortante aumentava a sensação de frio e não havia um cantinho abrigado. Mesmo assim, permanecemos em terra mais de uma hora para recompor as forças. Quando não deu mais pra aguentar o frio, fomos embora.
Nova partida, dessa vez para contornar definitivamente a Ponta dos Castelhanos e do Guriri. O que encontraríamos lá fora? Se onde estávamos não estava bom, o que nos reservava o mar aberto?
O caiaque das Catitas avançava lentamente. Mesmo conhecendo a competência das tripulantes, e sabendo que estariam escoltadas pelo Capitão Zerozero e pelo Polaco,  não conseguia ficar tranquilo. Ainda achava um pouco imprudente passar pela ponta dos Castelhanos, até porque lá fora a coisa costuma engrossar.

Passamos a Ponta dos Castelhanos, depois a Ilha do Guriri, então a configuração foi mudando. Não cessaram as ondas nem o vento, mas agora as ondas vinham de popa proporcionando um agradável surf que nos levou rapidamente até a Ponta de Lopes Mendes e daí até o canto esquerdo, de quem olha do mar, da Praia de Dois Rios.

Cousteau desceu uma onda e atravessou, mas não virou. Desembarcamos sãos e salvos. Enquanto Pedro foi ajudar quem entrava na arrebentação, tratei de fazer algumas fotos.

Gustavo, que havia passado mal e vomitado, desembarcou antes da arrebentação e veio a nado. Seu lugar no caiaque foi ocupado por outro remador (não lembro quem) que, junto com a Renata, conduziu o barco em segurança até a areia.

De repente o Volney foi surpreendido por uma onda. A popa levantou, o bico fincou na areia. O caiaque ficou na vertical, deu uma pirueta e expeliu o Capitão pelos ares, igual àqueles pilotos de caça que se ejetam antes do avião se espatifar no chão. Infelizmente não registrei a acrobacia, mas vou dizer que foi uma das cenas mais impressionantes, senão a mais impressionante que testemunhei em 10 anos de canoagem. Tomou uma porrada e por sorte não se machucou gravemente.

Entre mortos e feridos escaparam todos. Gustavo estava estirado batendo os dentes destilando seu mal estar sob os cuidados da equipe de enfermagem da expedição.

Fui com Edu até um conjunto de casas pintadas de verde, em cujas paredes lia-se: CEADS. Foi o pessoal do Centro de Estudos Ambientais e Desenvolvimento Sustentável da UERJ que ficou de arrumar alojamentos para passarmos a noite. O casarão que nos foi reservado ficava no meio da praia e tivemos que rebocar os barcos pela beira da água até o local.

Fomos recebidos por uma senhora de ar bondoso que nos apresentou nossas acomodações. Uma mansão com vários quartos com camas forradas com roupa de cama numerada como nos tempos do presídio. Fiquei com a cama A28 dividindo o quarto com Tonho e Marquinhos. Na casa ainda tinha uma cozinha com geladeira, mas sem fogão. Logo na entrada, uma enorme mesa de reunião com várias cadeiras nos serviu como mesa de jantar.


Estávamos todos agradavelmente surpresos com a acolhida que nos foi reservada. Depois de remar 30km em mar bravio, teríamos conforto suficiente para descansar nossas carcaças carcomidas.

Usando um carrinho de carga, transportamos nossas tralhas até a casa, preparamos nossa comida e fizemos um tour pela vila.

Não é preciso dizer que mesmo com os corpos cansados não conseguimos dormir cedo por causa da excitação interior. Quase todo mundo estava virado. Saímos do Rio por volta das 5 da manhã; zarpamos de Jacareí às 9:10 e só desembarcamos em Dois Rios às 15:20. Quanta coisa tinha acontecido em 6 horas de remada! E quanta coisa ainda estava por vir. Afinal, estávamos apenas começando nossa expedição.

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