Intermediários

Processos, ferramentas e ambientes para objetivos subjetivos

O que é invisível a nós? Que coisas escapam aos cinco sentidos, que estão presentes mas não podem ser definidas? Ou seria a pergunta, o que é o invisível?

Um objeto é comum. Porém quando é portador de um poder, o que passa a ser? Um talismã, uma arma, um instrumento? O poder transforma o objeto em um veículo, uma ferramenta que permite ao seu operador realizar o objetivo proposto. Igualmente, uma área quando designada e delimitada passa a ser o espaço que possibilita o acontecimento do objetivo proposto. E interessam também os espaços de fronteiras pouco definidas, como são os espaços emocionais e espirituais, da mesma forma os dos sonhos e os das fantasias. Espaços estes que são abstratos e impalpáveis, que se permeiam e se confundem entre si, onde entramos e de onde saímos constantemente sem nos dar conta.

Os objetos-espaços atuam entre o físico, o psicológico, o emocional e o invisível. São intermediários e como tal passam a depositários de possibilidades, poderes e anseios. Pontuam o silêncio. São ações poéticas que existem no vazio entre as continuidades.

Rodrigo Cardoso, 2006

sexta-feira, 5 de abril de 2013

A Mensagem do Rio Carioca



O Rio Carioca, esse mesmo que exala um fedor insuportável e permanente perto da sua foz, ao lado do monumento a Estácio de Sá, no Aterro do Flamengo, e que um dia foi navegável até certo ponto, nasce lá na serra, no alto das paineiras [1], onde dezenas de pontos brilhantes espalhados pela vegetação formam uma miríade de águas cristalinas que se fundem em um riacho de águas transparentes nas quais, tempos atrás, se banhavam os Tamoios, acreditando que as águas refrescantes do Sagrado Carioca fariam os homens mais fortes e viris, e as mulheres mais belas e formosas.

Na altura da Primeira Represa do Cristalino Rio Carioca, construída no século XVII a montante da arcaria que sustenta o que foi um dia o Largo do Beijo, aqueles que fizeram o caminho pela trilha íngreme que começa perto da Mãe D'água, na Rua Almirante Alexandrino, próximo ao Silvestre, e que sobe serpenteando pelo vale, ainda podem tomar um banho revigorante e sonhar o mesmo sonho dos Tamoios. 
Pobres Tamoios; pobre Estácio de Sá; pobre de nós, cariocas; pobre de nós canoístas. O rio que abasteceu a cidade a partir de 1724 é hoje uma fonte de poluição do nosso mar graças à urbanização desordenada, à favelização e ao despejo indiscriminado de lixo e esgoto.  
Os sinais de degradação já podem ser percebidos logo abaixo da comunidade dos Guararapes no Cosme Velho. Num trecho descoberto que passa ao lado do prédio situado na esquina da Ladeira dos Guararapes com a Rua Indiana, é fácil observar a coloração cinzenta da água, sentir o cheiro característico de esgoto e constatar a presença de lixo, principalmente resíduos plásticos, que lançados displicentemente nas encostas, termina chegando ao rio que, por fim, os conduz até o mar. 
A poluição aumenta conforme o rio vai descendo o vale e recebendo seus afluentes, que também tiveram suas margens ocupadas de forma irregular. No Largo do Boticário, assim como ao lado do terminal de ônibus em frente à Ladeira do Ascura, onde existem mais dois pequenos trechos não canalizados do rio, podemos ver a “evolução” da saúde do Carioca depois de receber as águas servidas das comunidades Cerro Corá, Vila Cândida, Casarão e Vila Imaculada Conceição. 
A conexão das comunidades do Vale do Carioca à rede de esgoto, e a construção das galerias de cintura deveriam ser capazes de impedir que os resíduos lançados no Carioca chegassem à praia do Flamengo, contudo, seja a pé, de bike, de caiaques ou canoas, o que sentimos é um forte cheiro de esgoto onde o rio de encontra com o mar. 
O rio sagrado [2} dos Tamoios é um símbolo do descaso e do desrespeito com os quais tratamos nosso ambiente. Não só o ambiente Natural, como natureza a ser preservada e admirada, mas também como recurso a ser gerenciado, como lugar para viver e compartilhar, como biosfera, como projeto comunitário, enfim, como ambiente complexo que abarca aspectos morais, sociais, culturais, políticos e econômicos. 
Porque com o Carioca temos contato direto remando perto da sua foz, nos lembramos que inúmeros outros rios da cidade estão nas mesmas condições, padecendo dos mesmos males, e de outros até mais graves, que num passado recente causaram verdadeiras catástrofes “naturais”, quando a associação de chuvas fortes, assoreamento e entupimento de galerias de águas pluviais por imensa quantidade de garrafas plásticas e outros resíduos urbanos, provocou enchentes de proporções avassaladoras, desalojando e matando dezenas de pessoas. 
Porque ele trás para nós canoístas o mau cheiro do esgoto e toda sorte de lixo, ele nos coloca diante de questionamentos dos quais não podemos nos esquivar. Ele nos cola definitivamente ao contexto da cidade, do país, do mundo. Ele nos revela, com absoluta clareza, que estamos inseridos em um todo planetário, que fazemos parte de um ciclo, assim como a água, que não pertence ao mar, nem ao rio, nem à chuva, nem às lagrimas, nem ao suor.  
Um rio não acaba no mar, ele continua no mar, ele gera o mar e é gerado por ele que ao evaporar forma aquelas cirrus, cúmulus, estratos e nimbos, que dançam no céu e nos distraem enquanto remamos, até que o vapor contido nelas se condense e despenque formando de novo o rio.  
O Rio Carioca relaciona, assim, de maneira inequívoca, a canoagem com as questões socioambientais mais profundas e urgentes, ultrapassando a reduzida e inocente visão da canoagem como um simples esporte ou como uma forma de imersão na natureza pura, bela e acolhedora, que podemos acessar e usufruir remando para longe da costa, para as ilhas oceânicas, onde o ambiente ainda se revela exuberante com sua explosão de vida, onde podemos sentir o cheiro do mar, nos banhar em águas transparentes, admirar golfinhos e tartarugas.  
Ele denuncia a dessacralização e a coisificação da natureza e dos homens que nos obrigaram ao trabalho incessante e nos afastaram da dimensão do cuidado que devemos ter com todas as coisas, e que só resgataremos quando formos novamente capazes de nos sacrificar por aquilo que amamos, como somos capazes de fazer por um filho. O sacrifício que o Carioca nos pede em nome de todos os rios, de todos os mares, de todas as plantas, de todos os animais, de todos os seres humanos, é o de cuidar. 
Nós canoístas podemos retirar o lixo flutuante, organizar gincanas de limpeza e mutirões de reflorestamento costeiro. Decerto contribuiremos, mesmo que um pouquinho só, para termos uma paisagem mais limpa e, talvez, até consigamos chamar a atenção para o risco de os detritos comprometerem a realização das provas náuticas na Baía de Guanabara [3] durante as Olimpíadas de 2016.  Certamente nos divertiremos bastante, porque qualquer pretexto é bom pra remar. Mas, de certa forma, essas atividades são uma espécie de cuidado que tende a beneficiar mais diretamente a nós mesmos, não representam propriamente um altruísmo, não exige de nós um verdadeiro sacrifício. 
Como diz o Leonardo [4], o cuidado existe no contexto do afeto [5]. Cuidar significa se preocupar e se dedicar ao que nos afeta. Quando cuidamos, deixamos de pensar em  nós para dar atenção ao outro, e isso só é possível quando algo ou alguém tem importância para nós, quando é sagrada.  Cuidar não é um simples ato ou gesto particular, é um modo de ser que permeia nossas relações e que  requer um sentimento de respeito para com tudo e todos. Esse modo de ser é que possibilita a vivência do valor, e é a partir desse valor que surge as dimensões da alteridade e da sacralidade. 
Se o Carioca é importante para nós, então o que o Sagrado Rio suplica é um cuidado consciente, sedimentado numa reflexão profunda sobre valores, a fim de descobrir o que realmente é importante e abrir mão do que não é, e a partir daí cuidar do que importa. Um pequeno sacrifício, baseado no bom senso, na generosidade e na simplicidade.


Rodrigo Magalhães 

[1] Na verdade, da nascente até a Mãe D’água, o rio leva o nome de Rio Paineiras. Só depois passa a ser chamado Carioca. 
[2] Sagrado é tudo aquilo pelo que estamos dispostos a fazer um sacrifício. 
[3] Os detritos podem se prender nas quilhas e bolinas prejudicando o rendimento ou causar avarias sérias nos barcos
[4] Leonardo Boff.  Saber cuidar: ética do humano - compaixão pela terra. Petrópolis - RJ: Vozes, 1999. 
[5] Sentimos afeto por tudo o que nos afeta. 

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