Intermediários

Processos, ferramentas e ambientes para objetivos subjetivos

O que é invisível a nós? Que coisas escapam aos cinco sentidos, que estão presentes mas não podem ser definidas? Ou seria a pergunta, o que é o invisível?

Um objeto é comum. Porém quando é portador de um poder, o que passa a ser? Um talismã, uma arma, um instrumento? O poder transforma o objeto em um veículo, uma ferramenta que permite ao seu operador realizar o objetivo proposto. Igualmente, uma área quando designada e delimitada passa a ser o espaço que possibilita o acontecimento do objetivo proposto. E interessam também os espaços de fronteiras pouco definidas, como são os espaços emocionais e espirituais, da mesma forma os dos sonhos e os das fantasias. Espaços estes que são abstratos e impalpáveis, que se permeiam e se confundem entre si, onde entramos e de onde saímos constantemente sem nos dar conta.

Os objetos-espaços atuam entre o físico, o psicológico, o emocional e o invisível. São intermediários e como tal passam a depositários de possibilidades, poderes e anseios. Pontuam o silêncio. São ações poéticas que existem no vazio entre as continuidades.

Rodrigo Cardoso, 2006

sábado, 29 de maio de 2010


Começou a semana mundial do meio ambiente com um evento de limpeza na Praia de Botafogo promovido pelo Instituto Aqualung e pelo Clean Up The World.

O CCC foi convidado pelos amigos do CRG, Márcia Olivia e Marco Tavares, para reforçar as fileiras canoísticas, na esperança de dar maior visibilidade ao projeto Baía Limpa e, quem sabe um dia, resgatar suas águas, tornando próprias ao banho as praias de Botafogo, Urca, Flamengo, Eva, Adão e tantas outras das beiradas do Rio e de Niteroi. Taí um excelente pretexto para remar nesse dia friorento.


Meu ânimo não era dos melhores. O dia amanheceu estranho. Quer dizer, não sei. Levantei as 6 e vi o céu meio fosco, coberto por um véu leitoso. Entrevi algo de azul lá no fundo, mas era um azul tão pálido que não dava pra saber.

Fiz dois sanduiches e enchi a garrafa d’água; reuni saia, tampas, boinas; vesti uma camiseta de manga longa por baixo da camisa do clube e coloquei uma muda de roupa seca na mochila.
Estava fria a manhã. Não foi assim durante a semana passada. O outono traça seu caminho em direção ao inverno, tenho que me acostumar.

E fazia mais frio na rua, ainda mais com o vento zunindo nas orelhas e o ar gelado batendo no corpo durante a pedalada até o aterro.


Parei na Praia de Botafogo pra ver o movimento. O Pão de Açúcar parecia um vulcão soltando fumaça pelas ventas. As águas da enseada estavam imóveis. Na areia, um casal de quero-queros passeava despreocupado, mas quando tentava me aproximar, os bichos saiam andando alternando as patas. Foi uma visão animadora, suficiente para aplacar o torpor da alma ainda adormecida.

Chegando na PV, passei os olhos procurando algum canoísta e... Opa! Ainda tinham duas canoas na areia! Mas não deu nem tempo de ver quem ia embarcado. Quando desci a calçada a segunda canoa já estava sendo empurrada na direção das ondas. 


Tudo bem, vamos à ação. Abre cadeado do caiaque, abre o do remo. Tira as tralhas da mochila, bota o caiaque na areia, arruma tudo e... Braços pra que te quero! O mar parece ter aplainado um pouco e quase não há vento.


Saída tranqüila. Na virada do Pão de Açúcar avisto um navio envolto em brumas como um fantasma. O nevoeiro cobre a paisagem escondendo o relêvo de Niterói. Agora sinto o vento vindo de NE. A corrente puxa pra fora da barra sem muita convicção. As ondas sobem pelo costão em rendas esgarçadas que se desfazem em nada. Um cheiro de óleo empesteia o ambiente e, então, percebo manchas viscosas desenhando pequenos arco-íris na superfície da água.


Uma lancha pára de repente e um marujo pula no mar poluído. Entendo que há um problema e remo na direção da embarcação à deriva para ver se precisam de ajuda. Um cabo enrolou no hélice de tal forma que está difícil desprender. Um bom exemplo de como o lixo no mar pode prejudicar quem vive na linha d'água. Sem poder fazer nada, sigo meu caminho observando bandos de gaivotas passarem rumo ao alto mar.

O sol já tenta dissipar o cinza claro do céu que contrasta com o cinza escuro do mar. Ainda não tem força bastante para romper de vez o nevoeiro, mas já é o suficiente para aquecer o corpo.

Passo pelo Cara de Cão sem ondas e logo depois me deparo com um tapete de detritos perto da Coruja. Arrá! Já sei onde vou catar meu lixo. O cheiro de óleo persiste. Na Praia de Dentro, outro aglomerado de lixo. Vai faltar espaço no caiaque.


Na PU olho a carcaça do Bom Tempo devorada pelas vagas do tempo. Ali na beira, dois caiaques. Que surpresa! Que boa surpresa! Haroldo e Daniel se preparam para sair. Vamos juntos até o CRG.

Os barcos não flutuam; se atolam nas águas podres, mal cheirosas, corrosivas, densas de tanta porcaria dissolvida. Não há movimento, tudo parece morto, exceto pelas nossas vozes que nos arremessam uns de encontro aos outros em animado entendimento, mitigando a morbidez do ambiente.


No Guanabara um grupo está quase pronto pra se lançar ao mar. Desembarco pra uma conversa rápida  enquanto Haroldo e Daniel seguem em frente para aproveitar o dia de remada. Algum tempo depois parto pra coletar um pouco de lixo.

Remando direto para a Pedra da Coruja, espero encontrar aquele carpete de sujeira flutuante visto uma hora atrás, e no caminho encontro o Daniel voltando do Laje. Ele faz meia volta e continuamos juntos até a Praia de Dentro para catar o lixo estagnado perto de uma rampa. Entre os detritos uma espessa camada de óleo tem aspecto coagulado.



Não dá pra botar a mão na água. Os remos já estão ensebados. Então, catamos lixo na praia mesmo, enchendo três sacos em poucos minutos. No caminho de volta pra Urca encontramos o pessoal do CRG e o Tonho Caranguejo.

Depois de deixar o Daniel na praia e trocar uma ideia com a Alê e o Iuri que estavam por alí, Eu e Tonho fomos  para a Praia de Botafogo, onde voluntários recolheriam os sacos de lixo.


Prosseguimos para a porta da baía. Não sei quando atinei pro sol incendiando tudo a minha volta. Remo ouvindo o Caranguejo falar dos efeitos positivos que a canoagem produziu nele, sobre o reencantamento do mundo, sobre as façanhas que pretende realizar. Desmembrando a realidade à luz das boas palavras do Caranga, vejo andorinhas pousadas sobre claves de sol; vejo garças, biguás e tartarugas.




Pouco antes de dobrar o Cara de Cão, Tonho volta para a Urca. Eu prossigo pra PV com as ondas impelindo serenamente o caiaque pela água verde só um pouco saliente. Mas ao me aproximar do costão do Pão de Açúcar noto o mar atormentado, chapiscado de marolas pontudas e esbranquiçadas. As vagas vêm quebrando pela aleta direita invadindo o convés. Ora o caiaque desliza, ora finca a proa querendo rodar como um compasso. Seguro o remo com força dando bofetões na água pra manter o equilíbrio.

A adrenalina sobe diante do espetáculo do mar levantando cortinas de água e espuma. Mas dura pouco o desassossego e logo me encontro entregue à relativa mansidão da enseada, longe daquele trecho virado do avesso.


Quero chegar logo à praia. Firmo o caminho e coloco o remo na água, impressionado com a sujeira do mar, mas  satisfeito de ter participado do mutirão e feliz com os encontros do dia. Mais um dia.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Não fui ao mar, mas naveguei no computador e fiz excelente pescaria. Encontrei a matéria sobre canoagem e meio ambiente que foi publicada na edição n°6 da revista Visão Ambiental. Uma entrevista virtual feita pela jornalista Arielli Secco com representantes de dois clubes de canoagem, sendo um deles o CCC.


A blogueira mais rápida do oeste colocou um comentário no

"Remando pela Natureza

Esse é o título da matéria que saiu na revista Visão Ambiental em sua 6ª Edição. Legal perceber que os esforços dos remadores em limpar as beiradas têm repercursão na mídia.
Lá na página 28 está a matéria mostrando uma parcela da ajuda que o Clube Carioca de Canoagem lança pelas beiradas.
A ajuda pode até ser esporádica em ação propriamente dita mas é constante ao menos na fiscalização e na conscientização da população.
Vale a pena dar uma conferida no conteúdo da revista, é o cidadão cuidando das beiradas.


Boa leitura!"

Valeu Letícia!!!!

Abaixo, algumas fotos de canoistas cariocas fazendo sua parte. 

Faísca, Fumaça e Caranguejo com a chinelada

Rodrigo catando lixo na Prainha do Forte em Niteroi

Raffa e Gabi

Lelê: Gari dos Sete Mares

  
Alê, Tarcísio e Pedro plantando mudas na Cotunduba

Thierry e Rodrigo remando na vala negra em Nova Iguaçu

quinta-feira, 27 de maio de 2010




Fazia tempo que eu não entrava num mar tão grande e tão caótico ao mesmo tempo. Além do mar agitado, o vento também incomodava bastante levantando borrifos nos olhos.

Dentro da Enseada da PV já dava pra prever o que seria encontrado na passagem pelo costão do Leme. Ondas grandes escondiam o horizonte e as ilhas apoiadas sobre ele. 
Estava escuro e tudo sumia de vista atrás das ondas como num passe de mágica. Remei até o pontão do Leme passando bem longe da costeira, dando de cara com vagas que varriam o convés a todo momento. Definitivamente, não é um bom dia pra arriscar remar até o posto 6. Também não é um bom dia para fotos. Se ao menos o horizonte parasse na horizontal...  


O jeito foi ficar na enseada mesmo, só treinando equilibrio e testando o sistema nervoso junto com as meninas da oc6.
Apesar da frustração de não ter ido mais longe, foi divertido ficar brincando com as ondas e, no final de tudo, trocar uma ideia e um abraço gostoso com amigas queridas. 

terça-feira, 25 de maio de 2010

A beleza da paisagem vista da PV e as ondas impressionantes na laje do posto 6 dispensam textos.
Hoje as nuvens não eram tantas e só contribuiram para colorir o céu do jeito que Krishna gosta. Os tubos no shore break deixariam Faísca e Fumaça cheios de comichão para pegar as pranchas.
Em imagens, alguns motivos para ter remado hoje.







Sem comentários.

sábado, 22 de maio de 2010


Mais um dia em que o sol, tímido, brinca de pintor, decorando o céu em aquarela. Todo dia o mesmo lugar, a cada dia uma paisagem diferente graças ao jogo que fazem o vento, o mar, as nuvens.


7 da matina. Quatro oc6 já estão prontas tomando fôlego nas areias da PV. Charles também prepara uma oc2 para seguir até o Leblon. Era pra ser Cagarras, mas, não sei por que, ficou sendo Leblon.

Eu, o patinho feio, me apresso em arrumar meu caiaque para acompanhá-los; coloco as tampas dos compartimentos, visto a saia e o colete, amarro um cabo na proa. Pronto. Me jogo ao mar sem dificuldade, apesar das ondas que se fazem de inocentes, atrás de duas canoas que já estão a espera.


Remo um pouco pra fora procurando um bom ângulo para fotos. Não quero ficar para trás, mas também não posso perder a oportunidade de registrar o céu estupendo. As duas canoas femininas já estão lá na frente, e as outras vão passando. Passa uma, passa duas e, no final, não tem jeito, fico pra trás mesmo.


As ondas estão grandes, tentando esconder as ilhas que brincam de esconde-esconde. O caiaque balança, sobe, desçe, mergulha, vem a tona, numa coreografia que já conheço. Não tem como não se sentir um artista nessas beiradas. Somos, com nossos remos nas mãos, pintores, bailarinos, poetas...

A minha volta, traineiras coloridas; no ar, uma infinidade de gaivotas como que a desejar as boas vindas. Fazemos todos parte desse universo mágico onde não faltam nem as princesas. Essas seguem em ritmo acelerado e logo estão fora do alcance da minha vista.


Paro várias vezes para tentar capturar a beleza da paisagem. Lá longe os Dois Irmãos iluminados por um raio de sol, como dois atores a contracenar no foco de um refletor. De repente sinto gotas de chuva. Sim, está chovendo uma chuva delicada que em nada ameaça. Paro mais uma vez, agora para telefonar pro Edu Feijoca. Ele não vem. É uma pena. Serei o único patinho feio mesmo.


No Posto 6 as ondas formam tubos que mordem com vontade a laje. A água está verdinha, bonita como ela só. O sol ainda é uma esperança, mas vai sair, só tenho que esperar mais um pouquinho.

Logo na esquina do Diabo as ondas açoitam a pedra do Arpoador sem piedade. Rodopio como quem valsa, dou piruetas ao estilo Bolchoi e, finalmente, avisto duas oc6 paradas em contemplação. As outras continuaram até o Leblon como previsto. Meto o remo com força na água pra tentar chegar a tempo de um mergulho.


Durante todo o percurso, apesar das ondas próximas aos costões, sinto o mar macio, não resiste ao caiaque que avança gostoso. Chego a questionar como será a volta, mas agora quero só curtir esse precioso momento.

Antes de chegar ao final da praia vejo a canoa das meninas. Ouço as vozes contentes que me enchem de igual contentamento. Não vou enganar: alí estão pessoas que gosto muito e admiro um outro tanto. Não sei o nome de todas, só sei que Letícia, Andréia, Aline e Teté estão ali fofocando. E como é bom encontrá-las. Vou roubar uma frase da Lelê: "Muito bom estar entre amigos no meio dessa imensidão que é o mar. Não nos deixa sentir tão pequeninos..."


Naquela altura as nuvens já se esgarçavam deixando ver pedaços de um azul brilhante como aqueles de sabão em pó.

E lá vem a outra canoa feminina seguida da oc2 do Charles. Hora de partir. Pouco a pouco vou de novo me transformando no patinho feio e ficando para trás. Mas agora, tendo as canoas a vista, tento impor um ritmo mais vigoroso. Sigo o mais perto que posso das pedras tentando cortar caminho. Durante algum tempo consigo manter-me perto das canoas, assim mesmo vou perdendo terreno.


Paro perto da lage do Posto 6 para fazer algumas fotos. Consigo registrar algumas ondas e percebo que as canoas também pararam. Então recomeço forçando a mão pra ver se consigo pelo menos chegar junto com todo mundo na PV.

Agora o sol está presente iluminando o caminho. A oc6 está a minha esquerda, a oc2 segue mais atrás. Antes do Leme já estou entre as duas. Forço um pouco mais pra ver até onde aguento. Passo bem perto das pedras, quase em transe, seguro em meu barquinho sem me importar com os tapas das ondas que vêm de todos os lados e, finalmente, entro na enseada.

Vou chegando perto da praia devagar, aguardando o momento de me lançar na direção da areia. Minhas amigas Zo e Zu estão lá com suas companheiras refrescando as patinhas no molhado.


Avanço com suavidade até poder ficar de pé. Levo o caiaque até a areia sêca e depois vou ajudar no desembarque das canoas que vêm logo atrás.

Estamos todos em casa agora.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Que aves são essas?

Outro dia estava remando e me deparei com essas aves. Engraçado... frequento essas trilhas há 10 anos sem nunca ter reparado nelas.

Alguém sabe qual o nome dessa ave?


Caraca. Andorinha do artico!? Nesta época do ano vem todas pra cá, muitas ficam na ponta San Tenoncio. O Ronaldo sabe bastante sobre estes passarinhos, essas aves fazem um barulho dukct. (Marcão Tavares)

Também já levantei esta curiosidade. É raro vermos esta ave nas águas da Baia de Guanabara, acredito que seja uma andorinha do mar - Sterna Sp, que é uma ave migratória. Talvez esteja no Rio para um repouso de Viagem. Dê uma olhada no site: http://www.avesdeportugal.info/stehir.html e na reportagem da BBC - http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/2010/01/100111_passaro_rc.shtml. Elas estão em bando em Jurujuba - Niterói, sobre as centenas de boias do cultivo de mexilhão, o melhor repouso que encontraram. Este é um bom passeio de caique também. (Vini Palermo)



Conheço esse ae como trinta-réis, é um tipo de andorinha-do-mar. (Sandro Correia)
Parece uma espécie de trinta-réis. De qualquer forma, vou dar uma conferida nos meus livros. Concordo que deve ser andorinha-do-mar. (Marcelo Afonso)

Andorinha-do-mar e trinta-réis são o mesmo bicho? (Rodrigo)

Andorinha-do-mar é o nome popular dado pra familia Laridae, com 26 espécies de aves pelo mundo, entre elas gaivotas e trinta-réis. Trinta-Réis é o nome popular dado no Brasil para 11 espécies residentes e 8 visitantes que normalmente vem da América do Norte e da Patagônia Argentina, eles se reproduzem do Ururuguai até a Bahia. Pra quem gosta de aves marinhas, tem um livrinho muito interessante, e bem barato:
Aves marinhas costeiras do Brasil, Ronaldo Novelli, Ed Cinco Continentes. (Sandro)


Mais uma característica dessa incrível ave, ela é a a que percorre a maior distância no planeta quando migra e vice-versa, percorrer 150 mil milhas, acredite se quiser. (Ronaldo Chiarelli)

Outro dia, na ilha Madalena, tava cheio dessas andorinhas, numa algazarra danada. (Bruno Fitaroni)

Temos então um bando de andorinhas-do-mar nas nossas beiradas. Estavam em toda parte. (Rodrigo)

*Conversa tirada do fórum do CCC.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A meteorologia está anunciando a passagem de uma frente fria pelo Rio com previsão de ventos de 13 km/h, variando entre NW e SW, e ondas de até 3 metros, segundo o aviso de ressaca emitido pelo DHN para a área Charlie. De acordo com o climatempo, chove sexta e sábado, abrindo no domingo.


Hoje o mar tava nervoso e foram poucos os remadores que compareceram à praia, também por causa da apresentação do Globo Mar que, devido ao horário, deve ter mantido a galera debaixo dos caracóis dos travesseiros até mais tarde.

Eu e Candido saímos em meio à rebentação inundando o velho anaiko duplo até o gogó. Seguimos em direção ao posto 6 batendo de frente com as ondas, e depois de chacoalhar adoidado alí no costão do Leme resolvemos voltar e ficar só fazendo "musculação" entre a pedra do Anel e o Pão de Açúcar.

Apesar do céu encoberto, a paisagem estava deslumbrante e nos divertimos muito surfando as ondas "predominantes" que vinham de SW. Teve uma que nos fez deslizar um tempão, e só não durou mais porque paramos de remar com medo de capotar. As canoas não saíram, só tivemos a companhia das gaivotas e das tainhas.

 

O mar não está mesmo pra peixe, está mais pra deixe: deixe pra lá, deixe ver, deixe estar, deixe quieto, deixe pra depois, deixe pra amanhã, deixe pra depois de amanhã...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Encontro com Fábio Paiva no Rio de Janeiro


Prezados amigos.

Preparem-se!!!

O consagrado canoista Fábio Paiva virá ao Rio em Junho para um treino especial em mar aberto e convidou toda a galera remadora para participar.

Ele virá acompanhado de uma equipe de "alaskeiros" que ele treina há 4 anos, considerada uma das melhores do Brasil, formada pelos corredores de aventura Macuco e Coelho (1º a participar deste tipo de modalidade no exterior - Eco Chalenger), além do Edu (nadador com muitas premiações em Master), Guilherme Terra (inúmeros feitos em viagens de bike) e o Willy (várias participações em campeonatos e travessias de canoagem).

Hoje em dia todos são totalmente dedicados à Canoagem como esporte e filosofia de vida e estão muito bem preparados para qualquer resgate e remadas diversas, pois o foco do treinamento tem sido tanto a orientação preventiva como a acão emergencial.

Será uma excelente oportunidade para aprendermos técnicas de enfrentamento de mar bravio em condições reais com um dos maiores canoistas do Brasil e sua equipe.

Essa vivência está prevista para acontecer no sábado, 12 de Junho nas proximidades das Cagarras.

Não será um curso formal, mas um passeio recheado de dicas superimportantes para quem faz ou pretende fazer travessias em alto mar.

Por razões evidentes estamos pedindo para os interessados se manifestarem para que possamos organizar da melhor maneira possível essa fantástica experiência.

Nada será cobrado. Nosso amigo Fábio se dispôs a vir gratuitamente, motivado pelo o desejo de nos ajudar a desenvolver nossas competências canoísticas e fortalecer a canoagem carioca e o trabalho do CCC. Um verdadeiro presente! Um privilégio!

Para saber mais sobre o Fábio dêem uma olhada no

Não percam essa oportunidade!!! Inscrevam-se. Não é todo dia que um monstro da canoagem se dispõe a tanto, por tão pouco.

Eu é que não vou ficar de fora...

terça-feira, 18 de maio de 2010

bi-bi-bi-bi-bi-bi-bi-bi-bi-bi-bi-biiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!

Caraca, o despertador, preciso levantar! Não remei esse fim de semana e não posso perder o dia de remada hoje. A alma pede, o corpo cede.


Espantei a preguiça com um café e parti, tarde mas parti. Em Botafogo a paisagem está coberta pelas nuvens; céu, sol e montes ainda parecem dormir. Acorda aí, ô dia, que eu tô chegandoooo! O mar parado na enseada não tá nem aí pra nada.

Na PV não tem mais ninguém. Estranha sensação de perder o trem. Pra onde será que foram? O Pão de Açúcar não responde, ainda tá de pijama e touca o safado.



Quase desanimo, mas lembro que remar oxigena a mente, então lá vou eu pro posto 6. Céu e mar cor de chumbo, compondo uma bela paisagem em preto e branco. Passa uma canoa de 6 com Marcelo e Léo à bordo... Mais adiante uma canoa de bravas meninas... Sigo bordejando a pedra do Leme, indo até bem perto da arrebentação.


As ondas passam velozes na direção da baía, vindas de SW. Na altura do Copacabana Palace retorno e pego a direção da Cotunduba sem encontrar nenhum do povo flutuante por aquelas beiras, só gaivotas e tesourões rodopiando acima dos barcos de pesca cujas proas apontam pro vento, para leste.


Passo por trás da ilha, vou pra onde uma garça está "ciscando" seu desjejum, ouvindo o piar de gaviões lá no alto da ilha. Tá cheio de bicho aqui hoje. Onde estão as pessoas? Paro para tentar uma foto da garça, mas tá mexendo muito perto das pedras e a corrente tá puxando pra fora.

Depois me aproximo de duas gaivotas que conversam animadas em meio a sonoras gargalhadas zombeteiras. Olha, Zuleide, aquele humano tá olhando pra gente. É mesmo, Zoraide... coitado, parece perdido. krakrakrakrakra!!! Sai pra lá humano, a conversa não é pro seu bico! É melhor eu ir embora, a corrente tá forte mesmo e com a preguiça avanço devagar.


As nuvens começam a se espalhar e já enxergo umas nesgas da promessa de um céu azul. O sol, por sua vez, coloca o nariz pra fora vendo se já é hora.

Me aproximo da praia onde algumas pessoas caminham na areia, e lá vem o Jorjão no seu barco indo puxar a rede de espera. As ondas estão fracas por aqui, empurram o caiaque suavemente até encostar na areia. Vejo que as canoas voltaram. Onde estavam? Devem ter ido pra Urca, pois não vi ninguém vindo de Copa.

Beleza de remada! Quando se faz o que se gosta a vida ganha novos tons. O remo que fende a água... é tão simples.

Uma gaivota sobrevoa a PV. Ei! Manda lembranças minhas pra Zu e pra Zo.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A bicicleta corre pela ciclovia, as rodas cortando a pista vermelha. A sombra da madrugada dessa quinta, 13 de Maio, cede lugar à luminosidade do sol que já vai aparecendo atrás dos penedos de Niterói. Pedalo com força, não quero chegar tarde na PV para não ter que remar sozinho num mar ainda grande.

São seis e meia no meu relógio novo ainda destituído de personalidade, sem arranhões, sem marcas. A surrada bicicleta segue em disparada junto ao muro do Iate Clube. É engraçado como nos apegamos a objetos usados. Gosto tando da minha magrela... acho até que ela se importa comigo também. Sinto o mesmo pelo meu caiaque que está PV, bom companheiro, cheio de cicatrizes feitas pelas cracas das costeiras por onde foi arrastado tantas vezes.

Cheguei. Venta um pouco, talvez bastante, não sei dizer. É esse vento que vai secando aos poucos o suor produzido pelo esforço da pedalada. Retiro as coisas da mochila e começo a preparar o barco vendo o mar batendo com força, castigando as areias da Praia Vermelha.

O que faz uma pessoa sair de casa de madrugada, no frio, para enfrentar a bocarra desse mar que ruge sem parar?


Queria saber pra onde meus braços me levarão hoje.

Tudo pronto. O Pedro vem mais uma vez me ajudar a colocar o caiaque na beira. Bom amigo esse Twigg. Deve perceber que estou ficando velho, por isso me dedica a atenção de sua amizade confortadora.


Apesar da relativa fúria das ondas me lanço ao mar sem sacrifício e fico esperando as 4 OC6 que serão conduzidas para a PU para a prova de sábado. Sempre fico admirado com a disposição dessa galera das va'as, não deve ser fácil colocar esse trambolho no mar batido. Mas passam sem problemas pelas ondas devorantes. Tiro fotos e sigo em direção ao costão do Pão de Açúcar seguindo a primeira canoa.

O mar engole as pedras para logo regurgitá-las com um arrôto de satisfação. Uma onda meio sem jeito quase me derruba. Ao longe percebo a crista daquelas que passam pelo Laje. Estão bem grandinhas, vindas de SE, arrastando uma cauda branca como noivas em direção ao altar. Sinto o vento NE na cara e preciso ficar atento.


Depois de contornar o Cara de Cão o mar se acalma e meu coração bate mais devagar. As canoas ficam por alí paradas para o pessoal fazer umas fotos. Sigo em frente tentando manter o ritmo até a PU, onde uma canoa já descansa na areia.


Não me demoro muito, pois ainda tenho que voltar, sozinho.

Por mais que tente colocar a proa na direção do Laje não consigo. Penso mesmo que é uma ilusão pretender apontar para algum lugar, pois no final das contas o caiaque termina me levando de encontro a mim mesmo.


Vejo algumas ondas estourando e paro para tentar fazer uma foto. Espero um tempão sem conseguir. A corrente me leva pra fora, parece querer me botar na boca do mar. As ondas me assustam quando passam dizendo para eu ir embora enquanto é tempo. Obedeço.

Sigo depressa empurrado pelo vento. Por vezes a proa mergulha na água verde dando um ligeiro tranco. Já na beirada da praia espero para observar a sequência das ondas, não tô nada afim de tomar um caldo por ali.No momento certo acelero e deslizo sem problemas até a areia. Ufa! São e salvo!

Mais um dia, mais uma remada. Contudo ainda sem resposta para a pergunta: o que faz uma pessoa sair do seu conforto pra remar no frio em meio ao medo?O que busco afinal?  Talvez a resposta seja simplesmente: EU mesmo, esse velho conhecido que ainda desconheço.

domingo, 2 de maio de 2010

Gragoatá

Domingo, dia 2 de Maio. As trilhas do mar me levaram pros lados de Gragoatá.

Já tinha passado por lá em 2008 quando voltava de Paquetá com o Pedro. Paramos para tirar água do Horn antes de atravessar a baía no meio de um sodoeste e no estresse do momento não deu pra ver nada, só tirei uma fotinho meio tremida de cagaço. Lembro que tive uma estranha sensação de estar deixando algo por ali junto com a água tirada do caiaque, algo a ser recuperado mais tarde.

Já é tarde. Talvez não encontre ninguém para remar. Mas tudo bem, minha vontade hoje é de remar sozinho mesmo. Preciso ficar um pouco com meus pensamentos. Estando só, preciso ser prudente e o Forte de Gragoatá me parece um bom destino, pois é abrigado na Baía e tem uma praia para desembarque. Além disso os 15 km do percurso, ida e volta, mantêm intacto o atrativo "esportivo" da remada.

Na PV encontrei a Lê voltando com sua canoa, e a dupla vencedora da Regata Ratier na oc2, Carlos Machado e Jorge. Mar calmo, ventinho a toa, visibilidade baixa. Uma névoa densa não deixava ver Boa Viagem e da Fotaleza de Santa Cruz só via o vulto.

Remei sem pensar em nada até passar pelo Laje, onde parei pra ver se encontrava a dupla Faísca e Fumaça de bobeira por alí. Nenhum sinal. Segui em frente remando num mar de azeite e atravessei o canal rapidinho, meio na direção de Charitas porque não se via muita coisa e o tráfego de navios estava intenso.

Já chegando em Gragoatá, o sol dspontava atrás do forte. O lixo brotava na superficie.

Ó! onipresente lixo! Vós que sois flutuante; que nos cerca e nos envolve..., que estás nas praias, misturado aos minúsculos grãos de areia; que estás nas ruas e em nossas casas... Eu estou no meio de vós!

Desembarquei pra beber uma cervejinha e explorar o local. Fui informado pelo guarda que o Forte de Gragoatá abriga uma repartição da burocracia do Exército e que não está aberto à visitação. No entanto a informação não procede. É possível visitar o forte desde que a visita seja agendada junto ao Serviço de Comunicação Social do Forte, à Praia de Gragoatá 145. Lá dentro podemos ver algumas antigas peças de artilharia, a galeria subterrânea dos paióis e a bateria elevada.

Dei meia volta do portão mesmo. Só deu pra ver a placa de mármore onde está escrito em latim: "Sendo Pedro II Imperador Constitucional do Brasil, foi acabada esta fortificação, no quadragésimo ano da independência da pátria - 1863".


Ali ao lado no campo de futebol rolava um "clássico" local: Milan e Real Madri. 1 a 1 na hora que eu falava com o bandeirinha. As barracas de peixe frito, batata frita e cachorro quente ainda não estavam abertas, mas vale a dica gastronômica. Num cais no final da praia um casal pescava, enquanto do outro lado um cidadão abnegado varria um pouco o lixo da areia.


Hora de partir. Contornei o promontório onde o forte fica cercado de um areal e segui pra Boa Viagem para um desembarque rápido numa prainha na face oeste da ilha pra apreciar mais um pouco a paisagem, agora livre do nevoeiro.

Também minha cabeça desanuviou. Percebo então súbitamente que depois de horas remando não há nada, apenas eu e meu caiaque no meio desse marzão. Apontei a proa para Gragoatá, atingi meu próprio inconsciente.

Um ventinho entrando pela boca da barra arrepiava ligeiramente o mar que no costão do Pão de Açúcar tava cheio de lixo. Dentro da enseada da PV, mais pra beira, a água tava verdinha e clarinha, convidando prum banho.

Tibum!!! Alma lavada!