Intermediários

Processos, ferramentas e ambientes para objetivos subjetivos

O que é invisível a nós? Que coisas escapam aos cinco sentidos, que estão presentes mas não podem ser definidas? Ou seria a pergunta, o que é o invisível?

Um objeto é comum. Porém quando é portador de um poder, o que passa a ser? Um talismã, uma arma, um instrumento? O poder transforma o objeto em um veículo, uma ferramenta que permite ao seu operador realizar o objetivo proposto. Igualmente, uma área quando designada e delimitada passa a ser o espaço que possibilita o acontecimento do objetivo proposto. E interessam também os espaços de fronteiras pouco definidas, como são os espaços emocionais e espirituais, da mesma forma os dos sonhos e os das fantasias. Espaços estes que são abstratos e impalpáveis, que se permeiam e se confundem entre si, onde entramos e de onde saímos constantemente sem nos dar conta.

Os objetos-espaços atuam entre o físico, o psicológico, o emocional e o invisível. São intermediários e como tal passam a depositários de possibilidades, poderes e anseios. Pontuam o silêncio. São ações poéticas que existem no vazio entre as continuidades.

Rodrigo Cardoso, 2006

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A bicicleta corre pela ciclovia, as rodas cortando a pista vermelha. A sombra da madrugada dessa quinta, 13 de Maio, cede lugar à luminosidade do sol que já vai aparecendo atrás dos penedos de Niterói. Pedalo com força, não quero chegar tarde na PV para não ter que remar sozinho num mar ainda grande.

São seis e meia no meu relógio novo ainda destituído de personalidade, sem arranhões, sem marcas. A surrada bicicleta segue em disparada junto ao muro do Iate Clube. É engraçado como nos apegamos a objetos usados. Gosto tando da minha magrela... acho até que ela se importa comigo também. Sinto o mesmo pelo meu caiaque que está PV, bom companheiro, cheio de cicatrizes feitas pelas cracas das costeiras por onde foi arrastado tantas vezes.

Cheguei. Venta um pouco, talvez bastante, não sei dizer. É esse vento que vai secando aos poucos o suor produzido pelo esforço da pedalada. Retiro as coisas da mochila e começo a preparar o barco vendo o mar batendo com força, castigando as areias da Praia Vermelha.

O que faz uma pessoa sair de casa de madrugada, no frio, para enfrentar a bocarra desse mar que ruge sem parar?


Queria saber pra onde meus braços me levarão hoje.

Tudo pronto. O Pedro vem mais uma vez me ajudar a colocar o caiaque na beira. Bom amigo esse Twigg. Deve perceber que estou ficando velho, por isso me dedica a atenção de sua amizade confortadora.


Apesar da relativa fúria das ondas me lanço ao mar sem sacrifício e fico esperando as 4 OC6 que serão conduzidas para a PU para a prova de sábado. Sempre fico admirado com a disposição dessa galera das va'as, não deve ser fácil colocar esse trambolho no mar batido. Mas passam sem problemas pelas ondas devorantes. Tiro fotos e sigo em direção ao costão do Pão de Açúcar seguindo a primeira canoa.

O mar engole as pedras para logo regurgitá-las com um arrôto de satisfação. Uma onda meio sem jeito quase me derruba. Ao longe percebo a crista daquelas que passam pelo Laje. Estão bem grandinhas, vindas de SE, arrastando uma cauda branca como noivas em direção ao altar. Sinto o vento NE na cara e preciso ficar atento.


Depois de contornar o Cara de Cão o mar se acalma e meu coração bate mais devagar. As canoas ficam por alí paradas para o pessoal fazer umas fotos. Sigo em frente tentando manter o ritmo até a PU, onde uma canoa já descansa na areia.


Não me demoro muito, pois ainda tenho que voltar, sozinho.

Por mais que tente colocar a proa na direção do Laje não consigo. Penso mesmo que é uma ilusão pretender apontar para algum lugar, pois no final das contas o caiaque termina me levando de encontro a mim mesmo.


Vejo algumas ondas estourando e paro para tentar fazer uma foto. Espero um tempão sem conseguir. A corrente me leva pra fora, parece querer me botar na boca do mar. As ondas me assustam quando passam dizendo para eu ir embora enquanto é tempo. Obedeço.

Sigo depressa empurrado pelo vento. Por vezes a proa mergulha na água verde dando um ligeiro tranco. Já na beirada da praia espero para observar a sequência das ondas, não tô nada afim de tomar um caldo por ali.No momento certo acelero e deslizo sem problemas até a areia. Ufa! São e salvo!

Mais um dia, mais uma remada. Contudo ainda sem resposta para a pergunta: o que faz uma pessoa sair do seu conforto pra remar no frio em meio ao medo?O que busco afinal?  Talvez a resposta seja simplesmente: EU mesmo, esse velho conhecido que ainda desconheço.

domingo, 2 de maio de 2010

Gragoatá

Domingo, dia 2 de Maio. As trilhas do mar me levaram pros lados de Gragoatá.

Já tinha passado por lá em 2008 quando voltava de Paquetá com o Pedro. Paramos para tirar água do Horn antes de atravessar a baía no meio de um sodoeste e no estresse do momento não deu pra ver nada, só tirei uma fotinho meio tremida de cagaço. Lembro que tive uma estranha sensação de estar deixando algo por ali junto com a água tirada do caiaque, algo a ser recuperado mais tarde.

Já é tarde. Talvez não encontre ninguém para remar. Mas tudo bem, minha vontade hoje é de remar sozinho mesmo. Preciso ficar um pouco com meus pensamentos. Estando só, preciso ser prudente e o Forte de Gragoatá me parece um bom destino, pois é abrigado na Baía e tem uma praia para desembarque. Além disso os 15 km do percurso, ida e volta, mantêm intacto o atrativo "esportivo" da remada.

Na PV encontrei a Lê voltando com sua canoa, e a dupla vencedora da Regata Ratier na oc2, Carlos Machado e Jorge. Mar calmo, ventinho a toa, visibilidade baixa. Uma névoa densa não deixava ver Boa Viagem e da Fotaleza de Santa Cruz só via o vulto.

Remei sem pensar em nada até passar pelo Laje, onde parei pra ver se encontrava a dupla Faísca e Fumaça de bobeira por alí. Nenhum sinal. Segui em frente remando num mar de azeite e atravessei o canal rapidinho, meio na direção de Charitas porque não se via muita coisa e o tráfego de navios estava intenso.

Já chegando em Gragoatá, o sol dspontava atrás do forte. O lixo brotava na superficie.

Ó! onipresente lixo! Vós que sois flutuante; que nos cerca e nos envolve..., que estás nas praias, misturado aos minúsculos grãos de areia; que estás nas ruas e em nossas casas... Eu estou no meio de vós!

Desembarquei pra beber uma cervejinha e explorar o local. Fui informado pelo guarda que o Forte de Gragoatá abriga uma repartição da burocracia do Exército e que não está aberto à visitação. No entanto a informação não procede. É possível visitar o forte desde que a visita seja agendada junto ao Serviço de Comunicação Social do Forte, à Praia de Gragoatá 145. Lá dentro podemos ver algumas antigas peças de artilharia, a galeria subterrânea dos paióis e a bateria elevada.

Dei meia volta do portão mesmo. Só deu pra ver a placa de mármore onde está escrito em latim: "Sendo Pedro II Imperador Constitucional do Brasil, foi acabada esta fortificação, no quadragésimo ano da independência da pátria - 1863".


Ali ao lado no campo de futebol rolava um "clássico" local: Milan e Real Madri. 1 a 1 na hora que eu falava com o bandeirinha. As barracas de peixe frito, batata frita e cachorro quente ainda não estavam abertas, mas vale a dica gastronômica. Num cais no final da praia um casal pescava, enquanto do outro lado um cidadão abnegado varria um pouco o lixo da areia.


Hora de partir. Contornei o promontório onde o forte fica cercado de um areal e segui pra Boa Viagem para um desembarque rápido numa prainha na face oeste da ilha pra apreciar mais um pouco a paisagem, agora livre do nevoeiro.

Também minha cabeça desanuviou. Percebo então súbitamente que depois de horas remando não há nada, apenas eu e meu caiaque no meio desse marzão. Apontei a proa para Gragoatá, atingi meu próprio inconsciente.

Um ventinho entrando pela boca da barra arrepiava ligeiramente o mar que no costão do Pão de Açúcar tava cheio de lixo. Dentro da enseada da PV, mais pra beira, a água tava verdinha e clarinha, convidando prum banho.

Tibum!!! Alma lavada!